Rússia se mostra inflexível em G20 dividido pelos conflitos geopolíticos
A Rússia não deu nesta sexta-feira (30) nenhum sinal de flexibilização de sua posição sobre Kiev durante o encontro de ministros das Relações Exteriores do G20 nos Estados Unidos, enquanto as guerras na Ucrânia e no Irã aprofundam as divisões entre os membros do grupo.
As divergências ficaram evidentes durante as discussões após a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, acusar o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, de apresentar “mentiras” sobre o conflito.
“Ele apresentou muitas mentiras, muitas narrativas falsas que também conseguimos rebater depois”, declarou Kallas à AFP.
Autoridades europeias também buscaram aumentar a pressão sobre Moscou, especialmente para assegurar um cessar-fogo no Mar Negro, rota estratégica para a exportação de produtos agrícolas.
Lavrov, por sua vez, foi “bastante provocador” em suas declarações, segundo uma fonte diplomática europeia.
Em coletiva de imprensa, o chanceler russo criticou o “boicote arrogante” dos europeus, ao mesmo tempo em que elogiou a disposição do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de dialogar com Moscou.
A reunião do G20 começou com um contratempo: a tradicional foto de grupo foi cancelada pouco antes do início da cúpula, depois que alguns representantes europeus se opuseram a aparecer ao lado de Lavrov, informou uma fonte diplomática à AFP.
Os líderes europeus também optaram por não aparecer em fotos com delegações russas em reuniões anteriores do G20 realizadas neste ano, enquanto a invasão russa da Ucrânia, iniciada em 2022, continua.
Um funcionário americano afirmou que a foto foi cancelada devido à controvérsia e para evitar que "uma oportunidade cerimonial para uma foto se transformasse em uma distração diplomática".
O encontro de ministros das Relações Exteriores em Atlanta, na Geórgia, realizado poucos dias antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, coincide também com a vertiginosa alta dos preços globais da energia desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
A reunião prepara o terreno para uma cúpula de líderes do G20 em dezembro, em Miami, no complexo Doral, do presidente Donald Trump.
Mas, mesmo com os Estados Unidos buscando concentrar as discussões no crescimento econômico, nos desequilíbrios comerciais e nos desafios das cadeias de abastecimento - em áreas como energia e minerais críticos -, são esperados poucos avanços significativos.
Uma fonte diplomática observou que, em vez de uma declaração final, é provável que a reunião termine com um resumo da presidência, elaborado pelos Estados Unidos.
- “Conversa cordial” -
Ainda assim, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, advertiu, em uma sessão plenária de abertura, que o mundo enfrenta "crises econômicas e geopolíticas interconectadas, muitas das quais representam graves ameaças" à economia global.
Ele instou as economias do Grupo dos 20 - que inclui China, Índia, Rússia, Japão, Alemanha e França - a trabalharem juntas contra ameaças como as tensões nas cadeias globais de abastecimento de energia e alimentos e à liberdade de navegação.
À margem da reunião, Rubio conversou brevemente com Lavrov. O chanceler russo afirmou que os dois tiveram uma “conversa cordial”.
A Rússia foi marginalizada pela maior parte do Ocidente após sua invasão do território ucraniano, e o próprio Lavrov continua sujeito a sanções internacionais.
O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, declarou à imprensa alemã, antes da reunião em Atlanta, que "não há normalidade com a Rússia".
"Precisamos trocar nossas divergências de opinião aqui, à mesa", disse. "Mas não devemos transmitir sinais visuais enganosos", acrescentou, em referência às objeções dos europeus a uma foto ao lado de Lavrov.
Os Estados Unidos buscam uma solução diplomática para a questão da Ucrânia, ao mesmo tempo que solicitam a cooperação de Moscou para controlar os preços dos combustíveis, um tema fundamental na campanha para as eleições legislativas de terça-feira.
Trump suavizou recentemente algumas sanções contra a Rússia e também promoveu um acordo para que o país venda diesel aos Estados Unidos, em meio à alta dos preços desse combustível.
Trump também convidou seu homólogo russo, Vladimir Putin, para ir a Miami em dezembro.
Outro tema central da agenda dos Estados Unidos é a liberdade de navegação.
Um funcionário do Departamento de Estado destacou “a determinação compartilhada de enfrentar crises urgentes e manter abertas as rotas marítimas essenciais para o comércio, sem ameaças nem cobranças de pedágios”.
Porém, cresce a possibilidade de uma nova escalada no Oriente Médio, após Trump sinalizar que poderá ordenar um ataque ao Irã depois das eleições de meio de mandato na próxima terça-feira.
T.Schmidt--HHA