Esquerda se agarra à esperança de virada de Lula
"Vocês pensam que não fiquei decepcionado?", perguntou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a seus apoiadores na noite de segunda-feira (5) em Brasília. Segundo colocado no primeiro turno das eleições presidenciais, o petista ainda confia em suas chances de virada, embora tenha pouca margem de manobra.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o enfrentará com vantagem no segundo turno, em 25 de outubro, após ter conseguido no domingo 47% dos votos frente aos 45% de Lula, contrariando todas as previsões.
Nas legislativas, a esquerda sofreu um duro revés com a imposição de uma onda conservadora.
"Vamos dormir menos, vamos trabalhar mais", prometeu Lula. "Estou convencido: não há nenhuma razão para que a gente não seja eleito presidente da república".
Mas há chance real de Lula, de 80 anos, mudar essa situação?
"É difícil, é improvável, mas não é impossível", disse à AFP Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
- "Convencer" quem se absteve no 1º turno -
Para Luciana Veiga, cientista política e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), "o mais grave disso tudo é essa sensação de que não tem muito de onde Lula tirar em termos de votos".
Parece improvável que possa garantir os 8% de votos que foram para os demais candidatos no primeiro turno, pois praticamente todos são conservadores.
Por isso, o presidente mira nas abstenções como alvo prioritário. Mais de 33 milhões de pessoas não votaram no último domingo - 21% do eleitorado.
Essa reserva poderia, segundo Lula, lhe permitir reduzir a desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).
"Possivelmente tem uma causa: desinteresse. A responsabilidade é nossa, é devolver o interesse de participar do processo eleitoral. É simples assim", disse Lula após uma reunião com aliados em Brasília.
"Uma pequena mudança na abstenção pode mudar o resultado de uma eleição", afirma Beto Vasques.
Mas para Luciana Veiga, os eleitores que se abstiveram de votar, cujo número aumenta a cada eleição no Brasil, não são "uma mina de ouro". Ela vê mais chances de convencer quem votou branco ou nulo, cerca de 5% do eleitorado.
Marco Aurelio de Carvalho, um dos coordenadores de campanha de Lula, se diz confiante na capacidade da esquerda de enfrentar esse desafio.
"O mundo inteiro está olhando para o Brasil pela importância que as eleições têm. Então, nós temos que honrar essa responsabilidade e temos condição de virar", disse à AFP.
- Sem sucessor à vista -
Com seu carisma e longa experiência em disputas eleitorais, Lula segue sendo um ativo importante para a esquerda brasileira, afirma Beto Vasques.
"Se tivesse sido outro nome pela esquerda, possivelmente essa vitória do senador Flávio para presidente poderia ser ainda mais contundente", assegura.
Luciana Veiga, por sua vez, destaca que a longa liderança de Lula à frente da esquerda "dificultou muito que houvesse o crescimento de outros nomes. Passou muito tempo sem que não se apontasse alguém, não se preparasse alguém que pudesse exercer essa liderança".
A especialista considera que o futuro da esquerda poderia ser encontrado na nova geração, de onde surgiram muitos dos legisladores eleitos no domingo.
Foi o caso de Luna Zarattini (PT-SP), de 32 anos, eleita deputada federal, que pede uma "mobilização permanente para derrotar mais uma vez o bolsonarismo". Para isso, é preciso fazer "a juventude sonhar".
Mas Lula tem poucas cartas na manga.
Antes do primeiro turno, ele tinha agitado a bandeira da soberania diante das pressões do presidente americano, Donald Trump, e ampliado os programas de assistência social.
Agora, a esquerda quer voltar a mobilizar os eleitores com o argumento de ser o dique de contenção frente ao avanço da extrema direita, ao lembrar a gestão de Jair Bolsonaro, em particular a forma como lidou com a pandemia de covid-19, considerada catastrófica.
Também quer levar adiante a votação do fim da escala 6x1, um projeto de reforma constitucional que prevê dar dois dias de descanso semanal aos trabalhadores em vez de um, como vigora em muitas categorias atualmente.
Mas a iniciativa corre o risco de naufragar em um Congresso que já tem forte maioria conservadora e que será ainda mais dominante quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos, no início de 2027.
X.Nguyen--HHA