Hamburger Anzeiger - Pânico, ira e lágrimas: o difícil retorno de Evan Gershkovich após passar por uma prisão russa

Pânico, ira e lágrimas: o difícil retorno de Evan Gershkovich após passar por uma prisão russa
Pânico, ira e lágrimas: o difícil retorno de Evan Gershkovich após passar por uma prisão russa / foto: Oliver Contreras - AFP

Pânico, ira e lágrimas: o difícil retorno de Evan Gershkovich após passar por uma prisão russa

O jornalista americano Evan Gershkovich passou quase 500 dias em uma cela minúscula na Rússia antes de ser libertado, há dois anos, em uma extraordinária troca de prisioneiros envolvendo vários países. Ele levou quase o mesmo tempo que passou atrás das grades para se recuperar.

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Em entrevista exclusiva à AFP em Washington nesta quarta-feira (30), Gershkovich relatou o calvário vivido após ser detido sob acusação de espionagem. Ele lançou esta semana um livro de memórias, "This Cursed Beautiful Land" ("Esta terra linda e maldita", em tradução livre), no qual recria o drama.

Com a libertação, vieram à tona as emoções que havia reprimido durante o período em cativeiro. "Ataques de pânico, ficar paralisado em meio a aglomerações, irritabilidade", enumerou Gershkovich, de 34 anos.

"Enfrentei a prisão de uma maneira estoica para manter minhas emoções sob controle, mas evidentemente tudo aquilo foi se acumulando e começou a vir à tona quando recuperei a liberdade", explicou.

Depois de não ter chorado uma única vez na prisão, passou a chorar com frequência. Tinha pesadelos nos quais ainda se via atrás das grades.

Havia também uma sensação ainda mais perturbadora: a vontade de voltar ao cativeiro ao qual havia se acostumado. "Durante as primeiras semanas, sentia esse impulso muito estranho de querer voltar. Porque era algo que eu entendia", recordou.

Filho de imigrantes judeus da União Soviética, Gershkovich cresceu nos subúrbios de Nova Jersey. Falava russo com os pais e a irmã, comia comida russa e usava a forma russa de seu nome, Vanya.

Chegou à Rússia em 2017 para iniciar sua carreira no jornalismo, e trabalhou para a AFP em Moscou antes de ingressar no Wall Street Journal. Foi um dos poucos jornalistas que conseguiram continuar trabalhando em território russo depois que Moscou lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022.

- "Medo imenso" -

Em março de 2023, foi detido na cidade industrial de Ecaterimburgo, nos montes Urais, enquanto trabalhava em uma reportagem sobre a produção militar da Rússia.

Cerca de seis agentes do Serviço Federal de Segurança da Rússia, conhecido pela sigla FSB, invadiram o restaurante onde ele estava e o algemaram. A fonte com quem deveria se encontrar revelou-se um agente encarregado de preparar uma armadilha.

"Imediatamente senti um medo imenso, uma espécie de medo animal", recordou. "Colocaram um capuz na minha cabeça e me deram um golpe no abdômen. Acho que estavam apenas tentando me mandar uma mensagem, algo como: 'Agora você está sob nosso controle'."

Gershkovich afirma que, com exceção desse episódio, não foi submetido aos abusos físicos ou psicológicos sofridos por milhares de outros detentos nas prisões russas, incluindo ucranianos presos em territórios ocupados pela Rússia.

"Eles optaram por não me destruir como pessoa, não me torturar nem me privar de comida e água quente", afirmou Gershkovich, que aponta que os agentes russos sempre deixaram claro que ele seria usado em uma troca de prisioneiros.

Em agosto de 2024, depois de permanecer preso por 16 meses e ser condenado a 16 anos de prisão por espionagem, o jornalista foi levado de avião a uma base aérea nos arredores de Washington, onde foi recebido pelo então presidente Joe Biden e pela então vice-presidente Kamala Harris.

Um grupo de prisioneiros russos e alemães também foi libertado em troca da soltura, por países ocidentais, de vários agentes russos, entre eles o assassino condenado Vadim Krasikov.

A recuperação de Gershkovich exigiu tempo e psicoterapia. "Diria que levei aproximadamente o mesmo tempo que passei lá dentro para sentir que havia voltado ao normal", declarou.

Atualmente, Evan Gershkovich trabalha em Berlim para o Wall Street Journal.

F.Schneider--HHA